Atualizado 13 de dezembro de 2025 por Sergio A. Loiola
Pesquisadores da USP Descobriram processo em que a luz vermelha ativa produção de energia a partir do citoplasma da célula. Só então as mitocôndrias são ativadas e se observa um aumento na respiração.
A pesquisa foi publicada na Revista FEBS Letters.

A descoberta supera o paradigma anterior, no qual a luz vermelha é que ativaria diretamente a mitocôndria. No entanto, os pesquisadores mostraram que o processo é diferente.
Veremos a seguir como os pesquisadores alcançaram essa importante descoberta, e qual os efeitos para o campo da medicina e biologia, especialmente o uso de luz na saúde.
Como a luz vermelha pode ser usada na área de saúde? Quais as implicações desta descoberta? Deixe seu comentário no final!
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O novo processo ocorre no citoplasma, e não diretamente na mitocôndria, e revela as células como sensores metabólicos que reagem a diferentes cores
Cientistas do Centro de Pesquisa de Processos Redox em Biomedicina (Cepid Redoxoma), liderados por Alicia Kowaltowski e Maurício Baptista, do Instituto de Química (IQ) da USP, descobriram um novo mecanismo pelo qual a luz vermelha aumenta o consumo de oxigênio de mitocôndrias (estruturas responsáveis pela geração de energia) em células queratinócitas — as mais abundantes da pele.

O estudo revela que essas células atuam como sensores metabólicos capazes de reagir a diferentes cores da luz solar.
Para Baptista, o estudo representa uma virada conceitual na área.
“Eu estou muito empolgado com esse resultado,” afirma. “O trabalho quebra o paradigma de que a luz vermelha ativa diretamente a mitocôndria,” continua.
O novo processo provavelmente ocorre no citoplasma — a substância que preenche a célula entre a sua parede e o núcleo.
Só então as mitocôndrias são ativadas e se observa um aumento na respiração. Essa nova interpretação, afirma o pesquisador, é mais coerente do ponto de vista biológico.
“O projeto começou com a ideia de investigar como a luz visível afeta as mitocôndrias, que são o centro do metabolismo celular”, conta o doutorando Manuel Alejandro Herrera, primeiro autor do artigo publicado na revista FEBS Letters.

“Queríamos entender como as células mais expostas à radiação solar, os queratinócitos, se comportam diante de diferentes comprimentos de ondas luminosas, já que a luz do Sol é composta de várias faixas de cores.
Sempre estudamos o efeito da radiação ultravioleta, dos danos causados pelos raios do Sol, e temos um gap bem maior na compreensão de outras luzes.”
Nossa pele está constantemente exposta à luz solar, e compreender como ela responde a essa exposição é essencial para avaliar os impactos da radiação sobre a saúde.
Tradicionalmente, a radiação ultravioleta (UVA e UVB) tem sido associada a danos celulares, como reações fototóxicas — quando a luz causa consequências danosas — que oxidam componentes das células e podem levar ao envelhecimento precoce e ao câncer de pele.
Nos últimos anos, pesquisadores também começaram a explorar os efeitos de outras faixas do espectro solar. A luz vermelha, por exemplo, é uma radiação de baixa energia capaz de penetrar na pele e induzir efeitos estimulantes.
Até agora, porém, os mecanismos moleculares responsáveis por esses efeitos eram pouco compreendidos.
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Reprogramação metabólica: O processo fornece mais elétrons para a cadeia respiratória e aumenta a respiração celular com mais velocidade
Por meio da análise das reações metabólicas, os pesquisadores mostraram que diferentes comprimentos de onda da luz afetam os queratinócitos de maneira distinta.
Enquanto a radiação UVA suprime a produção de energia e as luzes azul e verde comprometem a capacidade da célula de permanecer viva e saudável, a luz vermelha tem o efeito oposto, estimulando o metabolismo oxidativo — processo de produção de energia via oxigênio.

Eles descobriram que esse efeito benéfico resulta da ativação da oxidação de ácidos graxos mediada por uma proteína catalisadora: a enzima AMPK.
O processo fornece mais elétrons para a cadeia respiratória e aumenta a respiração celular com mais velocidade.
A AMPK atua como um sensor de energia, mantendo o equilíbrio entre ATP e AMP — moléculas que fornecem altas e baixas energias para a célula, respectivamente — e desencadeando respostas metabólicas adaptativas.
Segundo Alicia Kowaltowski,
“essa é uma maneira completamente nova de ativar a via de oxidação de ácidos graxos. Nosso trabalho revelou uma via de sinalização que nunca antes havia sido descrita como modulada pela luz e que é extremamente central no metabolismo celular”.
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A luz não afeta diretamente a maquinaria mitocondrial, ela atua como um sinal metabólico mais amplo
A ativação da AMPK está associada à inibição da enzima ACC (acetil-CoA carboxilase), o que bloqueia a síntese de ácidos graxos e promove o redirecionamento dos ácidos graxos livres (AGL) para a β-oxidação mitocondrial, gerando energia.
A pesquisadora destaca que a luz não afeta diretamente a maquinaria mitocondrial, mas atua como um sinal metabólico mais amplo.

Para monitorar o metabolismo dos queratinócitos em tempo real, os pesquisadores utilizaram os sistemas Seahorse XF e Resipher, que permitem a medição contínua e não invasiva do consumo de oxigênio em células cultivadas.
Os dados revelaram que o aumento da respiração celular persistiu por até 48 horas após a exposição à luz vermelha, desaparecendo apenas no terceiro dia.

Esse é um padrão típico de reprogramação metabólica, sugerindo alterações enzimáticas em vez de ativação direta pela luz.
Outras células da pele, como fibroblastos e melanócitos, não apresentaram a mesma resposta à luz vermelha. A exclusividade na resposta dos queratinócitos indica a especificidade da via de sinalização.
A ativação metabólica observada nas células expostas à luz vermelha não significa uma perda de lipídios — células formadas por ácidos graxos que armazenam energia em forma de gordura. O processo destaca, na realidade, uma mudança na sua função.
“Essas células apresentam ativação da via de oxidação de ácidos graxos e diminuição dos níveis de ácidos graxos livres, mas não detectamos redução do triacilglicerol nem do colesterol, moléculas lipídicas,” explica a pesquisadora. Ou seja, não se pode dizer que as células estão “queimando gordura”.
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A descoberta será aplicada diretamente na melhoria das Terapias baseadas em luz
Tecnologias baseadas em luz são cada vez mais utilizadas no tratamento de diversas condições de saúde.
Na fotobiomodulação, por exemplo, luz com comprimentos de onda específicos é aplicada à pele para produzir efeitos terapêuticos, como alívio da dor e aceleração da cicatrização de feridas.

Esses efeitos podem ser úteis no tratamento de doenças inflamatórias, neurológicas e musculoesqueléticas.
“Há décadas se diz que a luz vermelha ‘ativa a mitocôndria’, mas existem poucos dados com uma visão mais ampla do metabolismo celular,” diz Baptista.
“Ativa a mitocôndria, mas como? Quais os efeitos reais? Qual a consequência?”
Ele observa que a força desse estudo também está na abordagem experimental adotada:
“Nunca se havia investigado esse efeito em células da pele com o rigor de um laboratório de metabolismo”.
Para Alicia Kowaltowski, compreender os mecanismos moleculares por trás dos efeitos da luz é essencial para o avanço das terapias baseadas em fotobiomodulação.
“Muita gente faz tratamentos com luz sem entender a base molecular do que está acontecendo”, observa. “A luz pode agir por diferentes mecanismos, inclusive pelo calor. Sem distinguir esses processos, não é possível aprimorar os tratamentos nem entender por que eles funcionam.”
Identificar as moléculas envolvidas, ela acrescenta, é o que permite desenvolver abordagens mais específicas e eficazes.

Para aprofundar os estudos sobre os efeitos da luz vermelha na pele, Herrera atualmente desenvolve parte de seu doutorado na Medical University de Viena, com uma Bolsa Estágio de Pesquisa no Exterior (Bepe) da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).
“Agora estamos focados em compreender mais a fundo como a luz vermelha atua no desenvolvimento da pele”, explica.
Para isso, o pesquisador utiliza células primárias isoladas de pacientes dermatológicos e modelos tridimensionais de pele cultivados em laboratório, que reproduzem de forma mais fiel o tecido humano.
“Estamos reconstruindo peles a partir do zero e irradiando essas amostras com luz vermelha.”
O artigo Mitochondrial fatty acid oxidation is stimulated by red light irradiation, de Manuel Alejandro Herrera, Camille C. Caldeira da Silva, Maiza Von Denz, Mauricio S. Baptista e Alicia J. Kowaltowski é de acesso aberto devido a um acordo entre a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e a Editora Wiley.
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Bibliografia
Revista FEBS Letters
Mitochondrial oxidation of fatty acids is stimulated by irradiation with red light.
Jornal da USP
Luz vermelha reprograma o metabolismo das células da pele
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Cientistas da USP Revelam Como a Luz Vermelha Ativa Produção de Energia na Célula













