Atualizado 1 de agosto de 2026
Pesquisa de cientistas da USP desfaz consenso ao demonstrar que o gasto energético em repouso é maior em pessoas com obesidade, contrariando a ideia anterior que considerava “metabolismo lento” na obesidade. Na realidade ocorre maior oxidação de gorduras (queima de lipídios para produzir energia) quando comparados a indivíduos sem obesidade.
A pesquisa foi publicada na Revista Frontiers in Nutrition.
Esse estudo de ponta liderado por cientistas brasileiros da Universidade de São Paulo (USP) desconstrói um mito metabólico arraigado há muito tempo. É um serviço de saúde pública extraordinário.
A constatação de que o gasto energético de repouso (GER) e a taxa de oxidação de gorduras são, na verdade, maiores em pessoas com obesidade em comparação a indivíduos sem a condição desmantela a simplificação do “metabolismo lento”.
Isso ajuda a desestigmatizar a saúde da mulher, direcionando a medicina de precisão para a real causa das disfunções metabólicas: a regulação hormonal, a resistência à insulina, os processos inflamatórios e a eficiência celular.

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A seguir veremos como o estudo de cientistas da USP desfez um mito histórico ao demonstrar que o gasto energético de repouso e a oxidação de gorduras são maiores em pessoas com obesidade, contrariando a antiga ideia de que a condição é causada por um “metabolismo lento”. Em texto, imagens e vídeos.
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Quebrando Paradigmas da Nutrição e Medicina
Por décadas, a narrativa popular e até mesmo correntes da medicina tradicional sustentaram a premissa de que a obesidade estaria diretamente ligada a um “metabolismo lento” — ou seja, uma incapacidade do organismo de queimar calorias de forma eficiente durante as funções biológicas básicas.
No entanto, uma pesquisa inovadora conduzida por cientistas da Universidade de São Paulo (USP) acaba de desmistificar esse consenso ultrapassado.
O estudo, focado na fisiologia e no metabolismo feminino, provou que mulheres com obesidade gastam mais energia em repouso e apresentam uma taxa de oxidação de gorduras (a queima de lipídios para gerar energia) superior à de indivíduos sem a condição.

A ciência começa a desmistificar o que alguns consideram “metabolismo lento” na obesidade. Apesar da complexidade do tema, pesquisadores da USP em Ribeirão Preto verificaram que, ao contrário do que se esperava, o gasto energético em repouso é maior em pessoas com obesidade.
Esses resultados estão publicados na revista Frontiers in Nutrition e revelam ainda uma maior oxidação de gorduras (queima de lipídios para produzir energia) quando comparados a indivíduos sem obesidade.
Sobre o gasto energético em repouso, Lorena Medeiros Batista, pesquisadora da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP e responsável pelo estudo, explica que corresponde “à energia necessária para manter funções vitais (como atividade cardíaca e respiração), mesmo quando estamos parados, dormindo ou sentados”.
Para produzir essa energia, o organismo queima (oxida) nutrientes, “o que está relacionado à oxidação contínua de substratos energéticos”.

Como na obesidade aceitava-se a hipótese de um metabolismo energético reduzido em oxidação de lipídios, a equipe decidiu investigar esta tese na predisposição à obesidade, avaliando 216 mulheres adultas, saudáveis e com diferentes classificações de IMC (Índice de Massa Corporal). Os testes metabólicos foram realizados entre 2017 e 2024.
Como resultados, o grupo constatou que as mulheres com IMC maior ou igual a 30 kg/m2 (com obesidade) apresentavam taxa significativamente maior de gasto energético em repouso e de oxidação de gordura corporal que as mulheres com IMC normal (menor que 25 kg/m2),
Isso equivale dizer que mulheres com obesidade gastam mais gordura para produzir energia que as sem obesidade. Essa informação, acrescenta a pesquisadora, foi observada “mesmo na ausência de intervenção dietética ou perda de peso”.
Para a pesquisa, Lorena Batista trabalhou sob orientação dos professores Julio Sergio Marchini, do Departamento de Clínica Médica da FMRP, e Carlos Alberto Nogueira de Almeida, do Departamento de Medicina da Universidade Federal de São Carlos (Ufscar), contando ainda com a colaboração de pesquisadores da Universidad de Los Lagos, Chile.
A seguir veremos as descobertas que contrariam abertamente o consenso sobre o gasto energético na obesidade, e as implicações desta descoberta para a saúde pública.
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A Ciência por Trás do Achado: Gasto Energético em Repouso (GER)
O Gasto Energético em Repouso (GER) representa a quantidade mínima de calorias que o corpo humano necessita para manter seus sistemas vitais operando — como os batimentos cardíacos, a respiração, a atividade cerebral e a regulação térmica.
Os dados metabólicos das participantes do estudo, mulheres com diferentes perfis de IMC (com e sem obesidade), foram obtidos por testes de calorimetria indireta (com aparelho que mede o consumo de oxigênio e a produção de dióxido de carbono).
São avaliações que estimam “a quantidade de calorias diárias gastas em estado de repouso, determinada pela produção de gás carbônico e consumo de oxigênio e dióxido de carbono”, informa Lorena.
O processo é indolor e calcula o gasto calórico pela leitura, realizada por meio de sensores, da quantidade de gás inspirado e expirado.

Ao utilizarem equipamentos de calorimetria indireta de alta precisão, os pesquisadores da USP mapearam a taxa metabólica de forma minuciosa, revelando dados surpreendentes:
Oxidação de Lipídios Aumentada: O organismo de mulheres com obesidade recruta proporcionalmente mais gorduras (lipídios) como combustível primário no estado de repouso do que o organismo de pessoas magras, buscando suprir a elevada demanda celular.
Maior Demanda de Massa Corporal: O tecido adiposo e a adaptação do sistema cardiovascular para sustentar uma maior massa corporal exigem um trabalho biológico contínuo e custoso do ponto de vista energético.
A pesquisadora justifica que o gasto energético em repouso tem papel fundamental nas necessidades totais de energia para manter o funcionamento do organismo.
Assim, as variações desse gasto “representam as diferenças individuais no metabolismo energético e podem influenciar a regulação do peso e da composição corporal”, afirma.

Como o estudo mostrou alterações no metabolismo energético de repouso, com maior gasto e queima de gorduras nessa condição,
“esses parâmetros podem servir de indicadores da doença, fornecendo informações valiosas para intervenções terapêuticas e estratégias de prevenção”, como melhores indicações de dietas personalizadas.
Os resultados são considerados valiosos na luta contra a obesidade, principalmente porque as mulheres estão em maior risco.
Dados do Ministério da Saúde revelam que a prevalência de sobrepeso e obesidade passou de 42,6% em 2006 para 61,4% em 2023, com a população feminina participando com o maior aumento, de 38,5% para 59,6% nesse período.
De toda forma, Lorena admite que se trata de um tema muito complexo, que envolve diversas variáveis metabólicas que podem diversificar o achado por especificidades de organismo e também pelo sexo biológico, limitação que o estudo traz por ter trabalhado apenas com mulheres.
Porém, a pesquisadora adianta que já planejam novos estudos que incluam participantes do sexo masculino.
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Por que Esse Estudo Transforma a Saúde Pública Feminina?
Para a pesquisadora, os resultados obtidos, além de contrariar a suposição de que “a obesidade levaria à redução da mobilização de gordura em repouso, possivelmente estão refletindo uma adaptação crônica a uma maior massa de tecido adiposo, níveis elevados de ácidos graxos circulantes e aumento da lipólise basal”.
Segundo Lorena, essa adaptação metabólica pode indicar que o metabolismo lento não seja uma característica da obesidade, mas uma influência direta na mobilização de gordura em repouso.
Esse aumento da oxidação de lipídios na obesidade “pode ser uma resposta do organismo ao excesso de gordura corporal, aumentando a disponibilidade de ácidos graxos livres (como consequência dessa disponibilidade de estoque aumentada presente na obesidade) para serem utilizados como fonte de energia”.

A descoberta da USP representa um marco para a medicina preventiva e para o tratamento da obesidade, trazendo implicações clínicas profundas:
- Fim da Culpa do “Metabolismo Lento”: Desconstruir a ideia de que o corpo é “preguiçoso” retira o estigma infundado sobre o paciente e redireciona o foco do tratamento.
- Atenção aos Fatores Reais: A pesquisa demonstra que o desafio da obesidade não está na incapacidade de gastar energia, mas sim em fatores complexos de regulação neuroendócrina, saciedade, processos inflamatórios, resistência à insulina e qualidade nutricional.
- Tratamentos de Precisão: Compreender a real dinâmica metabólica permite que nutricionistas e endocrinologistas elaborem estratégias alimentares e de exercícios físicos muito mais assertivas e individualizadas para o organismo feminino.
Ficha Técnica da Pesquisa da USP
Impacto na Medicina: Redirecionamento das condutas clínicas para fatores hormonais, inflamatórios e comportamentais de precisão.
Instituição: Universidade de São Paulo (USP).
Foco do Estudo: Metabolismo, Gasto Energético de Repouso (GER) e Oxidação de Lipídios.
Resultado Principal: Pessoas com obesidade apresentam maior gasto calórico basal e maior queima de gordura em repouso.
Consenso Desmistificado: Fim do mito do “metabolismo lento” como causa primária da obesidade.
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A Verdadeira Fisiologia da obesidade Humana: a importância da ciência questionar conceitos estabelecidos
A pesquisa da USP demonstra o valor inestimável da ciência brasileira e a importância de questionar conceitos estabelecidos.
Provar que o metabolismo de mulheres com obesidade trabalha em ritmo acelerado para manter as funções vitais abre portas para uma abordagem médica humanizada e fundamentada em evidências.
Avançar no combate à obesidade exige abandonar simplificações e encarar a complexidade do organismo humano. Quando a ciência ilumina os reais mecanismos do nosso corpo, a sociedade ganha em empatia, saúde pública e qualidade de vida.

“A obesidade é uma doença crônica e multifatorial, resultante do desequilíbrio entre ingestão e gasto energético, influenciada por fatores nutricionais, metabólicos, psicossociais e comportamentais”, fundamenta a pesquisadora, acrescentando que o gasto energético em repouso é um dos componentes centrais do metabolismo energético.
Como integrante do metabolismo, o gasto energético em repouso depende da composição corporal, especialmente da massa livre de gordura, que impacta a regulação do peso e a oxidação de substratos.
Lorena afirma que as alterações metabólicas associadas à obesidade “reforçam a importância de avaliar essas variáveis.”
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Bibliografia
Curadoria Técnica e Análise Audiovisual: Conteúdo Bibliográfico e Audiovisual Selecionado e Validado por Dr. Sergio Almeida Loiola – CV Lattes/CNPq.
Revista Frontiers in Nutrition
http://doi.org/10.3389/fnut.2025.1701686
Jornal da USP
Mulheres com obesidade gastam mais energia para manter funções vitais
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Análise Audiovisual
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