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Atualizado 18 de fevereiro de 2026 por Sergio A. Loiola

Pesquisas arqueológicas inéditas revelam que a civilização Maia foi muito maior do que se imaginava, atingindo 16 milhões de habitantes — superando a população do ápice do Império Romano.

Com uma soberania que perdurou por 3 mil anos, as novas descobertas reescrevem a história do urbanismo e da agricultura nas Américas.

As pesquisa foram publicadas na Revista Revista Science e no Journal of Archaeological Science: Reports.

A antiga cidade maia de Tikal abrigava milhões de habitantes em redes urbanas densamente conectadas. Foto: pxhidalgo/Depositphotos/IMAGO

Veremos a seguir como os pesquisadores usaram o radar LIDAR para acessar a cultura material sob a floresta, as interpretações e as implicações da surpreendente descoberta para atualizar a história Maia. Em texto, Imagens e vídeos.

Vídeo 1: A História Completa da Civilização Maia em 15 minutos (Reconstrução)

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Vídeo 2: Historia Maia: Economia, Política, Sociedade, Guerras e Astronomia

Vídeo 3: Como era a Astronomia Maia?

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A narrativa de decadência abrupta de um colapso muda por uma narrativa mais complexa e fascinante sobre resiliência, transformação, mudança e Adaptação

A História da civilização maia ganha novo capítulo com descobertas inéditas. Novas descobertas mudam profundamente  o que sabíamos sobre os maia.

O estudo de Estrada-Belli, publicado no Journal of Archaeological Science: Reports, estimou em cerca de 16 milhões a população maia durante o Período Clássico Tardio (600–900 d.C.) – muito acima dos 7 a 11 milhões que se acreditava terem vivido nas terras baixas.

Os cientistas usaram métodos de Radar LiDAR em larga escala para desnudar o que estava escondido sob a floresta.

Mapeamento a laser revelou a verdadeira magnitude dos assentamentos maias na Guatemala Foto: Canuto & Auld-Thomas/PACUNAM/dpa/picture alliance

Se a estimativa estiver correta, ela significaria que a população da região superava a da península Itálica no auge do Império Romano, que tinha o triplo de tamanho em território.

O enigma dos mais se acentua ainda mais. Tudo indica que teria ocorrido mais uma forma de adaptação do que um colapso. Migrar e se adaptar a novas condições em vez de permanecer em centros urbanos em declínio.

Com a revelação surpreendente os pesquisadores tentam explicar como essa imponente e misteriosa civilização perdurou por tanto tempo, e conseguia manter uma população tão grande.

Ilustração mostra rede de cidades maias descobertas na Bacia Cárstica Mirador-Calakmul, entre a Guatemala e o México. Foto: FARES USA/REUTERS

Nesse sentido, o mundo maia não está sendo “redescoberto”, e sim reinterpretado à luz de novas evidências. E, com isso, estão sendo revistas ideias que pareciam fixas há décadas:

1- Quantas pessoas viviam nas terras baixas, como os assentamentos eram organizados, o grau de conexão entre as cidades e o campo?

2- O que significa falar em “colapso” de uma civilização quando os dados sugerem não um desaparecimento, mas sim continuidade, realocação e adaptação?

Numa reportagem recente publicada pelo jornal britânico The Guardian, Francisco Estrada-Belli, professor do Instituto de Pesquisa Mesoamericana da Universidade Tulane, nos EUA, recorda vividamente sua primeira visita às ruínas de Tikal, quando ainda era uma criança.

A experiência o impactou de tal forma que ele, quando adulto, acabaria dedicando sua carreira a investigar e revelar os segredos dos maias. 

Mais de meio século depois daquela primeira viagem a Tikal, Estrada-Belli faz parte do grupo de pesquisadores que está transformando nossa compreensão da civilização mesoamericana.

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Laser LIDAR revelou rede urbana sob a selva que seria quase impossível de descobrir com métodos tradicionais

Grande parte dessa mudança de perspectiva se deve ao uso da tecnologia LiDAR – acrônimo para Light Detection and Ranging, ou Detecção e Medição de Distâncias por Luz –, que permite mapear o terreno oculto sob a selva.

Equipamentos instalados em aviões emitem bilhões de pulsos de laser e atravessam a vegetação até tocar o solo, gerando mapas tridimensionais que revelam estruturas invisíveis a olho nu.

Representação de radar Lidar realizando imageamento embarcado em avião. Imagem: Gemini: IA do Google

Segundo relatou a National Geographic em 2024, o momento da descoberta teve algo de cinematográfico.

Em um escritório em Nova Orleans, Estrada-Belli observava enquanto seu colega Marcello Canuto abria imagens aéreas e, com alguns cliques, removia digitalmente a vegetação.

Debaixo do que pareciam simples colinas havia reservatórios, terraços agrícolas, canais de irrigação e enormes pirâmides coroadas por complexos cerimoniais.

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As Cidades maia eram muito mais complexas, organizadas e planejadas

Os novos mapas revelam que os assentamentos maias eram muito mais complexos e interconectados do que se pensava. Os pesquisadores identificaram padrões de construção semelhantes tanto em áreas urbanas quanto rurais:

>> Uma praça pública central, geralmente associada ao controle da elite, cercada por zonas residenciais.

Fora do centro de Tikal existiam complexos residenciais, com praças rodeadas por casas e hortas. Nestes núcleos administrativos e comerciais, vendiam-se mercadorias e pagavam-se tributos às elites, por vezes sob a forma de bens exóticos e até de escravos. Baseada no trabalho de arqueólogos da região e de outros especialistas, a cena ilustra a forma como esta rede de bairros dispersa pelo interior sustentava o fluxo dos recursos de uma cidade. Imagem National Geographic

Além disso, quase todos os edifícios estavam a menos de cinco quilômetros de uma dessas praças, o que sugere que até mesmo a população rural participava ativamente da vida cívica e cerimonial.

Essa conclusão desafia a antiga ideia de cidades maias cercadas por uma selva praticamente vazia e revela, em vez disso, uma paisagem densamente ocupada e conectada por estradas elevadas, infraestrutura hidráulica, campos agrícolas e áreas úmidas manejadas de forma planejada.

Um exemplo claro dessa rede urbana aparece em El Mirador, no norte da Guatemala, uma das maiores cidades maias conhecidas.

Ali, o LiDAR revelou que o que pareciam colinas e caminhos naturais eram, na verdade, estradas elevadas e estruturas monumentais que conectavam a cidade a mais de 400 assentamentos vizinhos, formando uma vasta rede de comunicação.

“Os arqueólogos julgavam conhecer bem Tikal, mas o LiDAR revelou que a maior cidade maia da Guatemala era quatro vezes maior do que se pensava – uma complexa rede de estradas elevadas, campos em socalcos, albufeiras e estruturas defensivas.”  Imagem: FRANCISCO ESTRADA-BELLI (DADOS DO LiDAR: PACUNAM LiDAR INITIATIVE / NCALM)

Para sustentar populações tão numerosas em um ambiente de solos pobres e ciclos extremos de chuvas e secas, foram necessárias soluções igualmente monumentais.

Na região, desenvolveram-se sistemas agrícolas e hidráulicos altamente sofisticados, com terraços, canais e reservatórios que permitiram manter a produção de alimentos e gerenciar a água em condições ambientais difíceis — uma infraestrutura cuja magnitude só agora começamos a compreender.

“Não se podia alimentar tanta gente como faziam os antigos maias com o tipo de agricultura de corte e queima que se utiliza hoje”, explicou Canuto à National Geographic.

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No final do período clássico maia, ao invés de perguntar por “colapso”, pesquisadores propõem perguntar “como conseguiram sobreviver?”

A capacidade de sustentar populações tão numerosas dependia de um equilíbrio frágil entre infraestrutura, clima e organização social. Quando esse sistema começou a se tensionar, as grandes cidades do período clássico passaram por transformações.

Durante décadas, esse processo foi interpretado simplesmente como o “colapso” maia, mas cada vez mais pesquisadores propõem uma pergunta diferente: em vez de “por que desapareceram?”, “como conseguiram sobreviver?”.

A cidade maia de Tikal se desenvolveu por mais de 1500 anos Foto: Sergi Reboredo/VWPics/IMAGO

Como explicou Kenneth Seligson, professor de arqueologia na Universidade Estadual da Califórnia:

Essa mudança de perspectiva também obriga a reinterpretar o fim das grandes cidades clássicas. Quando Tikal ergueu sua última estela conhecida, no ano 869 d.C., a cidade acumulava mais de 1.500 anos de desenvolvimento contínuo.

O que se seguiu não foi um desmoronamento repentino, mas um processo gradual de reorganização: vários centros urbanos foram despovoados enquanto parte da população se deslocava para regiões do norte e do sul.

Cidades como Chichén Itzá e Uxmal cresceram rapidamente, o que sugere — segundo os pesquisadores citados — que muitos habitantes optaram por migrar e se adaptar a novas condições em vez de permanecer em centros urbanos em declínio.

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Descendentes maias estão vivos: A compreensão do mundo maia mostra que essa cultura não pertence apenas ao passado, mas segue viva

Para além da revisão histórica, essa nova compreensão do mundo maia mostra que essa cultura não pertence apenas ao passado, mas segue viva.

Hoje, mais de 11 milhões de pessoas pertencentes a diversos povos maias e a outros grupos indígenas da Mesoamérica vivem no México, Guatemala, Belize, El Salvador, Honduras e Estados Unidos, e muitos deles fazem parte das populações mais pobres do continente, apesar de descenderem de algumas das civilizações mais sofisticadas da América pré-colombiana.

Funeral na Guatemala de seis desaparecidos identificados 32 anos depois pela Fundação de Antropologia Forense Foto: Luis Echeverria/Xinhua/IMAGO

Na Guatemala, onde a população maia representa oficialmente 44% dos habitantes — embora por muito tempo identificar-se como maia tenha sido marcado por estigma e discriminação — essas pesquisas também assumem uma dimensão política.

Como explica Liwy Grazioso, ministra da Cultura e dos Esportes e arqueóloga especializada em história maia:

As demandas atuais dos povos originários incluem o reconhecimento como nações preexistentes, a autodeterminação territorial e um acesso mais equitativo a recursos.

Sonia Gutiérrez, a única mulher indígena no parlamento guatemalteco, resume assim essa luta: “Não devemos ser vistos como um povo alheio, mas como pessoas que vivem em nosso país, onde viveram nossos antepassados”.

As novas descobertas arqueológicas também questionam séculos de narrativas que diminuíram as culturas indígenas.

Grazioso lembra que, durante muito tempo, circularam teorias pseudocientíficas segundo as quais seria mais provável que os templos maias tivessem sido construídos por extraterrestres do que pelos antepassados da população local. 

Ruína da civilização Maia no México — Foto: Pixabay

Essas ideias, sugere a deputada, cumprem uma função política:

Mas a disputa pela memória não é apenas simbólica. Ela também atravessa uma ferida ainda aberta: a dos desaparecidos durante a guerra civil da Guatemala (1960–1996).

O confronto entre forças do governo e guerrilheiros, em sua maioria de esquerda, deixou cerca de 200 mil mortos, majoritariamente maias, e mais de 40 mil desaparecidos.

A Comissão para o Esclarecimento Histórico documentou 626 massacres cometidos por forças governamentais e atribuiu ao Estado mais de 93% das violações de direitos humanos registradas.

No laboratório da Fundação de Antropologia Forense da Guatemala, a tecnologia volta a desempenhar um papel central, embora aplicada a outra forma de arqueologia: a identificação de vítimas. Segundo o Guardian, a instituição trabalha atualmente com 12.611 amostras de esqueletos e conseguiu identificar quase 4 mil pessoas, principalmente por meio de análises de DNA.

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Patrimônio ameaçado por saqueadores, madeireiros, grileiros e narcotraficantes

Enquanto novas tecnologias revelam a riqueza do mundo maia oculta sob a selva, esse mesmo patrimônio enfrenta hoje ameaças urgentes.

Os mapas e dados recentes revelam marcas de saqueadores, madeireiros, grileiros e narcotraficantes que avançam sobre a segunda maior floresta tropical da América, colocando em risco inúmeros sítios ainda não estudados.

As ruínas maias de Calakmul em Campeche, o mesmo estado onde o lidar revelou outros assentamentos. Fotografia: Megapress Images/Alamy

A pressão é crescente: segundo a National Geographic, nas últimas duas décadas, a Guatemala perdeu cerca de 20% de suas florestas primárias.

Muitos dos sítios recentemente identificados por meio do LiDAR já apresentam sinais de saque, em uma corrida contra o tempo entre documentação e destruição.

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Sustentabilidade, resiliência e adaptação: Os maia desenvolveram métodos agrícolas que sustentaram milhões de pessoas durante milhares de anos

Talvez a lição mais importante que emerge dessas descobertas seja sobre resiliência e sustentabilidade.

Os antigos maias desenvolveram métodos agrícolas que sustentaram milhões de pessoas durante milhares de anos em um dos ambientes mais desafiadores do planeta.

Uma perspectiva aérea dificilmente intui a dimensão real de Dzibanché, na península do Iucatão. O LiDAR, uma tecnologia laser capaz de remover digitalmente a copa da floresta, mostra que esta cidade maia ocupava uma área de 20 quilómetros quadrados. Foto: RUBÉN SALGADO ESCUDERO. National Geographic

Como observa Estrada-Belli:

Diferentemente do que foi propagado por muito tempo, os maias foram uma civilização complexa, que alcançou feitos extraordinários e manejou os recursos naturais em seu entorno de uma forma que alguns pesquisadores consideram sustentáveis para a época.

E só estamos começando a reconstruir sua história agora.

O legado dos maias não está enterrado na selva; segue vivo em milhões de descendentes que continuam lutando pelo reconhecimento de seu lugar legítimo na história e no presente da América.

Bibliografia

Journal of Archaeological Science: Reports

New population density estimates and regional-scale settlement distribution models for the Classic Maya culture, obtained through airborne LiDAR scanning.

doi.org/10.1016/j.jasrep.2025.105288

Revista Science

Complexity of the ancient Maya lowlands, revealed by aerial laser scanning in northern Guatemala.

DOI: 10.1126/science.aau0137

National Geographic

Exclusive: Laser scans reveal Mayan “megalopolis” beneath the Guatemalan jungle.

National Geographic – Portugal

O reino oculto dos maias: Desvendando o passado e desbravando o futuro

DW

Novas descobertas mudam o que sabemos sobre os maias

Política de Uso

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