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Atualizado 14 de março de 2026

Conheça a CalixCoca, vacina desenvolvida por cientistas da UFMG que impede a chegada da cocaína e do crack ao cérebro, uma tecnologia inédita para o tratamento da dependência química no mundo.

A boa notícia é que a pesquisa já passou por etapas pré-clínicas, apresentando segurança e eficácia do imunizante.

Veremos a seguir como atua a vacina, a pesquisa e os pesquisadores que lutam pata livrar pessoas da dependência do uso de cocaína e seus derivados, como o crack, um problema de saúde pública de dimensões globais para o qual a medicina ainda busca um tratamento efetivo. Em texto, imagines e vídeos.

Pesquisadora Raíssa Lima Pereira, da UFMG, segura frasco contendo a formulação do imunizante Calixcoca. Imagem: UFMG

Se pudermos treinar o sistema imunológico para ignorar a euforia química das drogas, estaremos finalmente separando a biologia da dependência da vontade do indivíduo?

Até que ponto um ‘bloqueio molecular’ é a chave para a liberdade psicológica de quem luta contra o vício?

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Vídeo 1: CalixCoca: cientistas brasileiros estão desenvolvendo vacina contra crack e cocaína

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Nos ensaios o potencial imunizante estimulou a produção de anticorpos contra a molécula da cocaína, mas é necessário mais pesquisas para confirmar a eficácia em humanos

Pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) aposta na imunologia para encontrar essa solução para a dependência de cocaína e crack. Um problema de saúde pública grave no mundo, ainda sem solução definitiva.

A equipe está desenvolvendo uma vacina contra a droga e busca financiamento para viabilizar a realização dos primeiros testes em seres humanos.

Os ensaios iniciais em animais revelaram que o potencial imunizante conseguiu estimular a produção de anticorpos contra a molécula da cocaína, mas ainda não há evidências científicas de que realmente reduza a dependência da droga.

Pasta base da cocaína: droga é a segunda substância ilícita mais consumida no Brasil Foca Lisboa. Imagem:  UFMG

Essa hipótese será verificada em novos testes com animais, que deverão ocorrer antes da fase de ensaios clínicos, com voluntários humanos, ainda sem previsão de data para a realização.

O nome Calixcoca, diz o pesquisador, é inspirado na estrutura química que compõe o imunizante, do tipo calixareno, que tem formato semelhante a um cálice e serve como carreador do antígeno, um hapteno análogo de cocaína ‒ carreadores são substâncias de peso molecular maior, capaz de provocar uma resposta imunológica.

O farmacêutico Paulo Sérgio de Almeida Augusto, que integra o grupo da UFMG, explica que haptenos são moléculas que, por conta do tamanho reduzido, não são reconhecidas como invasoras pelo sistema imunológico, necessitando ser combinadas a uma macromolécula carreadora para induzir uma resposta imune do organismo.

O nome Calixcoca é inspirado na estrutura química que compõe o imunizante, do tipo calixareno, que tem formato semelhante a um cálice e serve como carreador do antígeno, um hapteno análogo de cocaína ‒ carreadores são substâncias de peso molecular maior, capaz de provocar uma resposta imunológica. Alexandre Affonso/Revista Pesquisa FAPESP. Imagem da UFMG

É o que acontece com a cocaína.

Para criar o novo imunizante, os pesquisadores desenvolveram um hapteno a partir de uma molécula de cocaína, modificada para se ligar ao carreador. Conjugado ao calixareno, ele ganha maior peso molecular e é, então, capaz de provocar uma resposta imunológica.

A ideia é que se a pessoa vacinada voltar a consumir cocaína ou crack, os anticorpos liguem-se às moléculas da droga na corrente sanguínea, impedindo, ou ao menos reduzindo, sua passagem pela barreira hematoencefálica.

Essa estrutura reveste os vasos sanguíneos que irrigam o sistema nervoso central e funciona como uma espécie de filtro, controlando o transporte de substâncias que chegam ao cérebro.

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A hipótese dos pesquisadores mineiros é a vacina impedirá que as moléculas da cocaína atravessem a barreira hematoencefálica e cheguem ao cérebro

Estudo conduzido pelo grupo mineiro com a molécula sintetizada pela UFMG demonstrou por meio de um ensaio de radioatividade que a vacina reduz a passagem da droga pela barreira hematoencefálica em animais.

Os resultados do trabalho foram publicados recentemente no Journal of Advanced Research.

A hipótese dos pesquisadores mineiros é de que, uma vez que a vacina impedirá que as moléculas da cocaína atravessem a barreira hematoencefálica e cheguem ao cérebro, a pessoa não sentirá os mesmos efeitos prazerosos que, antes, acionavam o circuito de recompensa cerebral, provocando a compulsão.

Imagens de cintilografia mostram menor concentração de um radiofármaco de estrutura e ação semelhantes ao da cocaína no cérebro de roedores imunizados com a vacina mineira (pontos rosa no centro da imagem) do que no grupo de controle. Fonte: UFMG

Essa teoria, contudo, ainda precisa ser comprovada na fase de exames clínicos.


A nova abordagem terapêutica é vista com contida esperança por especialistas em dependência química.

Cruz estuda o mecanismo neurobiológico da recaída ao uso de cocaína e crack, em projeto apoiado pela FAPESP. Ele busca entender por que cerca de 70% a 80% dos indivíduos recaem durante o tratamento.

“Esses dados ressaltam a urgência do desenvolvimento de novas estratégias terapêuticas. Nesse contexto, as vacinas têm sido apontadas como uma nova e promissora abordagem farmacológica”, comenta o pesquisador.

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Existe o risco do consumo de maior dosagem na tentativa do dependente de reativar o circuito de recompensa cerebral

A Calixcoca, contudo, não é a primeira formulação terapêutica baseada na imunologia para combater a dependência química.

“O potencial terapêutico das vacinas contra drogas foi demonstrado pela primeira vez em meados dos anos 1970, quando um conjugado de morfina-albumina sérica bovina foi capaz de reduzir levemente a autoadministração de heroína em um macaco rhesus. Na década de 1990 surgiram os primeiros relatos sobre tentativas de desenvolvimento de vacinas contra cocaína e nicotina”, afirma Cruz. O experimento com o macaco rhesus foi relatado na revista Molecular Psychiatry, em 1974.

O potencial terapêutico das vacinas contra drogas foi demonstrado pela primeira vez em meados dos anos 1970. Mas até o momento nenhuma vacina teve efeito no mundo.

A despeito de resultados promissores em estudos pré-clínicos e alguns ensaios clínicos iniciais, até agora não existe nenhuma vacina antidroga registrada no mundo.

“Em geral as vacinas são eficientes em modelo animal. Mas quando vão para a fase de ensaios clínicos não apresentam bons resultados”, confirma a imunologista Denise Morais da Fonseca, do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (ICB-USP).

Em março, ela fez parte de um curso promovido pelo ICB sobre tratamento farmacológico da dependência. Para preparar as aulas, resolveu pesquisar revisões de literatura a respeito de vacinas, e o resultado foi frustrante.

“Uma revisão de 2022 levantou 23 ensaios clínicos já concluídos sobre vacinas antidrogas, dos quais seis voltados ao tratamento da cocaína ‒ a maioria era contra nicotina”, conta. “Todos falharam.”

Algumas vacinas, ressalta a imunologista, não produziram anticorpos em número suficiente ou a resposta imune caiu muito rapidamente.

As razões para esses resultados ainda não estão claras, mas podem se relacionar à variabilidade genética dos indivíduos testados, algo que não existe quando se usa modelo animal.

“Em geral as pesquisas usam camundongos isogênicos, ou seja, geneticamente uniformes”, informa Fonseca.

Outra possível explicação pode estar no próprio comportamento do voluntário submetido à vacina.

“Em alguns testes que falharam, o dependente usou doses maiores da droga até conseguir obter o efeito desejado”, diz a pesquisadora.

Os pesquisadores da UFMG reconhecem que, teoricamente, existe o risco do consumo de maior dosagem na tentativa de reativar o circuito de recompensa cerebral.

Segundo Augusto, essa questão será estudada posteriormente, com modelos experimentais que permitirão estimar a quantidade de droga que a vacina é capaz de bloquear.

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A vacina não tem nenhuma base proteica, gera baixa reação, e não exige cadeia fria para produção e armazenamento

O grupo mineiro confia, sobretudo, na maior eficácia da Calixcoca quando comparada a projetos anteriores. Essa confiança está amparada na constituição química da formulação.

Os projetos anteriores de vacinas antidrogas utilizavam como carreadores proteínas que já haviam sido empregadas em outras formulações de vacinas utilizadas pela população, o que gerava certo nível de sensibilização.

Outra vantagem da nova formulação, segundo seus desenvolvedores, estaria no processo produtivo.

O calixareno é uma substância mais estável e não exige cadeia fria para produção e armazenamento. O processo seria mais barato”, diz o químico da UFMG.

Cadeia fria é a logística de manuseio, armazenamento, distribuição e transporte em temperatura controlada de medicamentos termolábeis (sensíveis à ação da temperatura).

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Somente a vacina não resolverá: é necessário uma abordagem integrada de tratamento, combinando terapia comportamental, suporte psicossocial e outras intervenções


Mesmo que a Calixcoca demonstre, nos estudos clínicos futuros, ser eficaz no papel de criar anticorpos contra a cocaína, precisará ser acompanhada de outros suportes terapêuticos. É o que adverte Cruz, com base em suas pesquisas sobre os mecanismos biológicos da dependência.

Ele explica que existe uma memória associativa relacionada à droga, que pode ser disparada por diferentes gatilhos, como situações de estresse ou exposição do indivíduo a ambientes e contextos associados ao consumo.

Resumo gráfico: Dois novos imunógenos baseados em calix[ n ]areno foram capazes de produzir anticorpos anti-cocaína e diminuir os níveis de [ 99mTcTc]TRODAT-1, um radionuclídeo derivado da cocaína , no cérebro dos ratos testados. Imagem: Do artigo: https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S2090123221001715

Quando uma pessoa faz uso crônico de determinada substância, explica o pesquisador, seu encéfalo associa o efeito da droga com o local onde o indivíduo costuma consumi-la, os objetos que utiliza, as pessoas em volta e, até mesmo, roupas que normalmente usa na ocasião.

A simples exposição a esses elementos pode despertar o desejo incontrolável pela substância.

“É fundamental pensar o emprego de uma vacina antidrogas junto com políticas públicas”, acrescenta Fonseca, do ICB-USP. Ela avalia que existem diversas questões éticas envolvidas no emprego do recurso.

Vamos utilizá-las como vacinas terapêuticas ou profiláticas? Seriam escolhidos grupos de risco para serem vacinados?”, questiona.

Uma aplicação da vacina seria a proteção materno-fetal contra os males causados pela exposição pré-natal à droga

Uma possibilidade de uso do novo fármaco, considera a imunologista, seria a proteção materno-fetal contra os males causados pela exposição pré-natal à droga.

Essa é outra vertente do trabalho da UFMG, tema da tese de doutorado em medicina molecular do farmacêutico Paulo Augusto, defendida em 2020.

O pesquisador lembra que a exposição à cocaína durante a gestação traz riscos não apenas às mães, que podem sofrer aborto espontâneo e complicações no parto, mas também aos fetos e bebês, com repercussões para a vida da criança.

Prematuridade, baixo peso, danos ao desenvolvimento neurobiológico, malformações e maior risco de surgimento de transtornos psiquiátricos na adolescência são alguns dos efeitos deletérios relacionados ao consumo de cocaína durante a gestação.

A pesquisa de doutorado do farmacêutico foi uma prova de conceito para a utilização da vacina anticocaína durante a gestação, a partir de testes com ratas grávidas.

Publicado na revista Molecular Psychiatry, em 2021, foi o primeiro estudo a relatar a eficácia de um imunizante do gênero durante a gravidez.

O projeto correu em paralelo ao desenvolvimento da Calixcoca e, por isso, o pesquisador resolveu utilizar uma vacina criada pelo norte-americano Kim Janda, denominada GNE-KLH. Fruto de estudos realizados desde a década de 1990, ela obteve bons resultados nos exames pré-clínicos, mas não apresentou os efeitos esperados nos ensaios clínicos.

Nos testes com animais, os resultados foram positivos.

Ele conta que esses anticorpos foram capazes de atenuar a agitação e o efeito hiperlocomotor induzido pela cocaína nos filhotes recém-desmamados. Para comprovar essa hipótese, os roedores recebiam doses de cocaína e, depois, eram colocados dentro de caixas e observados.

“O comportamento primário do filhote é ficar escondido em um canto da caixa. Sob a ação da cocaína, eles ficavam mais desinibidos, movendo-se, por toda a área da caixa. Mas aqueles que receberam anticorpos mantinham o comportamento normal.” A equipe mineira planeja fazer o mesmo experimento com a Calixcoca.

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A pesquisa precisa de R$ 30 milhões para os estudos clínicos de fase I e II, que devem levar entre dois e três anos para serem concluídos

Para o bioquímico Cruz, é fundamental que a ciência busque a compreensão dos mecanismos de dependência e identifique potenciais de tratamento.


Para viabilizar a realização dos ensaios clínicos, os pesquisadores do grupo mineiro têm conversado com possíveis financiadores.

Em junho, a prefeitura de São Paulo anunciou investimento de R$ 4 milhões no projeto e a intenção de avaliar sua aplicação em grupos elegíveis, incluindo dependentes químicos em fase de recuperação, na próxima fase da pesquisa. Há conversas também com o governo paulista e o Instituto Butantan.

Os pesquisadores já depositaram uma patente da candidata a vacina em nome da UFMG e da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (Fapemig), que apoia o projeto.

Em maio, o estudo mineiro foi selecionado como um dos finalistas do 2º Prêmio Euro Inovação na Saúde, iniciativa internacional que destaca inovações na área médica, patrocinada pela empresa farmacêutica brasileira Eurofarma.

A droga em números

— No mundo, 21,5 milhões de pessoas fizeram uso de cocaína pelo menos uma vez entre 2019 e 2020, o que representa 0,4% da população de 15 a 64 anos

— No Brasil, a droga é a 2ª substância ilícita mais consumida, perdendo apenas para a maconha

— No período de 2008 a 2015 houve no país aumento de 23% nos registros de hospitalizações em razão de transtornos mentais e comportamentais devidos ao uso de cocaína

FONTES Global overview of drug demand and drug supply ‒ World Drug Report 2022, Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (Unodoc); BASTOS, F. I. et al (org). III Levantamento nacional sobre o uso de drogas pela população brasileira, Fiocruz/ICICT, 2017; OPALEYE, E. S. et al (org). II Relatório Brasileiro sobre Drogas, Ministério da Justiça e Segurança Pública, coedição com a Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), 2021.

Bibliografia

Journal of Advanced Research

Calix[n]arene-based immunogens: A new non-proteic strategy for anti-cocaine vaccine

doi.org/10.1016/j.jare.2021.09.003

Revista Pesquisa Fapesp

Uma potencial vacina contra a cocaína

FUNDEP – Fundação da Apoio a UFMG

Vacina Calixcoca

Conselho federal de Farmácia

Calixcoca: vacina brasileira promete revolucionar tratamento contra dependência de cocaína e crack

Grupo MedCof

O que se sabe sobre a vacina que promete eliminar a dependência de cocaína e crack

Análise Audiovisual

Vídeo 1 Rede TVT: CalixCoca: cientistas brasileiros estão desenvolvendo vacina contra crack e cocaína

Vídeo 2 Eli MBonzo: A Vacina que Pode BLOQUEAR a Cocaína – Entenda a Revolução Científica Brasileira! 

Outros Artigos da Pesquisa da Vacina

SABATO, B. et alSafety and immunogenicity of the anti-cocaine vaccine UFMG-VAC-V4N2 in a non-human primate modelVaccine. 24 mar. 2023.

ASSIS, B. R. D. et alLow doses of pharmaceutical formulations loaded with UFMG-V4N2 immunogen induce the production of IgG anti-cocaine antibodies and provide evidence of cerebral protection in the preclinical model. Journal of Colloid and Interface Science (JCIS) Open. v. 9, abr. 2023.

AUGUSTO, P. S. A. et alThe GNE-KLH anti-cocaine vaccine protects dams and offspring from cocaine-induced effects during the prenatal and lactating periods. Molecular Psychiatry. 11 ago. 2021.

BLOOM, B. T. et alVaccines against Drug Abuse ‒ Are we there yet? Vaccines. 27 mai. 2022.

Política de Uso

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CalixCoca: A Revolucionária Vacina da UFMG que Bloqueia os Efeitos do Crack e da Cocaína | Nature & Space

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