Atualizado 19 de julho de 2026
Arqueólogos encontraram evidências surpreendentes do mais antigo tratamento de cárie feito em um molar até o presente, com ferramentas de pedra, envolvendo perfuração/rotação, na Sibéria, Rússia, realizados por Neandertais.
A pesquisa foi publicada na Revista PLOS One.
Esse achado na Sibéria é simplesmente fascinante por derrubar a ideia de primazia do sapiens em habilidades sofisticadas na história: primeiro, a de que os Neandertais eram brutos sem capacidades culturais complexas; segundo, a de que as nossas tecnologias modernas surgiram do nada, de forma repentina. Foi um processo longo, com origens muito recuadas no tempo.

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A seguir veremos os resultados dessa empolgante pesquisa, como a odontologia e a engenharia de ferramentas de rotação no tratamento de cárie é antigo, com raízes profundas a cerca de 80 mil anos. Em texto, imagens e vídeos.
Vídeo 1: Neandertais Já Faziam Tratamento Dentário Há 59 Mil Anos?
Vídeo 2: INCRÍVEL: A odontologia dos neandertais há 59.000 anos
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Desmistificando o Passado: saberes e tecnologias complexas mostram que a primazia não era exclusividade do Homo sapiens
Muitas vezes, a sociedade moderna olha para a história da tecnologia como uma linha que começou de forma repentina e recente, associando o nascimento da medicina e da engenharia exclusivamente aos humanos modernos (Homo sapiens).
No entanto, a arqueologia de ponta acaba de desinterrar um fóssil que estilhaça essa narrativa linear e reconecta a evolução cultural a uma herança muito mais antiga e compartilhada.
Em um achado surpreendente na região da Sibéria, na Rússia, arqueólogos identificaram o mais antigo tratamento de cárie da história da humanidade, datado de 59 mil anos atrás.

O dado mais revolucionário da descoberta não é apenas a idade do procedimento, mas sim os autores da façanha: os Neandertais.
De acordo com um estudo publicado na revista revisada PLOS One, de autoria de Alisa Zubova, do Museu de Antropologia e Etnografia Pedro, o Grande, da Academia Russa de Ciências (Kunstkamera), em São Petersburgo, e seus colegas, os neandertais possuíam o conhecimento necessário para identificar uma infecção dentária e a habilidade motora para remover o tecido danificado.
Descobertas arqueológicas mostraram que os neandertais usavam palitos de dente para remover restos de comida dos dentes e possivelmente também utilizavam plantas medicinais, mas a extensão de suas capacidades médicas ainda não está clara.
Neste estudo, Zubova e seus colegas descrevem um dente neandertal que sofreu alterações físicas para tratar uma infecção.

https://www.usgs.gov/products/maps , acessado em 15 de dezembro de 2021); b. Sequência estratigráfica com a localização da descoberta do molar Chagyrskaya 64 indicada em laranja; c. Vista geral da caverna; d. Localização da descoberta do molar Chagyrskaya 64 in situ na Camada 6c/2. Do atrigo: https://journals.plos.org/plosone/article?id=10.1371/journal.pone.0347662
Esta descoberta representa atualmente a evidência mais antiga do mundo de um tratamento dentário bem-sucedido. Os danos documentados no dente neandertal da Caverna Chagyrskaya, na Sibéria, apontam não apenas para a remoção intencional da polpa, mas também para o desgaste antemortem – um desgaste que só poderia ter ocorrido se o indivíduo continuasse a usar o dente enquanto vivo. Descrevem os autores
Também identificamos áreas de desmineralização onde remanescentes de danos cariosos foram preservados, indicando ainda mais que a concavidade no dente estava associada ao tratamento.
A seguir veremos como esse tratamento de cárie era realizado pelos neandertais, e quais os significados para a odontologia e a ciência em geral.
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Odontologia na Idade da Pedra: A Tecnologia Lítica de Perfuração dental para tratar cárie
O estudo detalhado de um dente molar fossilizado revelou marcas inequívocas de uma intervenção cirúrgica intencional e extremamente precisa para a época.
Longe de ser um arranhão acidental, os cientistas identificaram o uso de microferramentas de pedra lascada para realizar um processo de perfuração e rotação diretamente na zona afetada pela cárie.
Ficamos intrigados com o formato incomum da concavidade na superfície mastigatória do dente. Ela diferia da morfologia normal da câmara pulpar e não correspondia ao padrão típico de lesões cariosas observadas em Homo sapiens . Além disso, arranhões claramente visíveis sugeriam que a concavidade não era resultado de danos naturais, mas de ações intencionais. Dra. Alisa Zubova

Esse procedimento pré-histórico demonstra três fatores tecnológicos cruciais:
Gestão da Dor e Anatomia: O tratamento indica uma compreensão clara de que remover o tecido podre aliviava o sofrimento crônico, sugerindo uma transmissão cultural de saberes médicos práticos dentro do grupo.
Domínio de Instrumentos de Precisão: Os Neandertais não usavam pedras apenas para golpear; eles sabiam fabricar micrólitos pontiagudos capazes de desgastar o esmalte dentário sem quebrar o dente do paciente.
Mecânica de Rotação Manual: A presença de microrranhuras concêntricas no interior da cavidade prova que eles aplicavam movimentos de rotação contínua (o primeiríssimo ancestral da famosa “broca” de dentista).
O dente tratado pelos neandertais é um molar único da Caverna Chagyrskaya, na Rússia, com cerca de 59.000 anos.
No centro do dente, há um orifício profundo que se estende até a câmara pulpar.
Os pesquisadores realizaram experimentos em três dentes humanos modernos para demonstrar que um orifício com a mesma forma e os mesmos padrões de sulcos microscópicos pode ser criado perfurando o dente com uma ponta de pedra semelhante às ferramentas encontradas na Caverna Chagyrskaya.

O orifício neste molar danificado, assim como os sulcos de palito ao longo da lateral do dente, são um exemplo de lesão de cárie na mesma população, o que é raro entre os neandertais.
A microtomografia computadorizada revelou alterações na mineralização da dentina compatíveis com cáries severas. A manipulação humana de lesões cariosas já foi documentada no Paleolítico Superior, Mesolítico e períodos posteriores.
Portanto, levantamos a hipótese de que os danos observados também poderiam representar vestígios de tal intervenção médica, mas de um período significativamente anterior.
Esse procedimento teria sido doloroso, mas também teria, em última análise, aliviado a dor de uma infecção dentária, removendo a parte danificada do dente.
Essas modificações fornecem evidências de que os neandertais tinham a capacidade de identificar a origem da dor, determinar como tratá-la, aplicar a destreza manual necessária para uma operação eficiente e suportar tratamentos dolorosos para aliviar o desconforto futuro.
Para interpretar a concavidade na superfície oclusal do dente, realizamos perfurações manuais experimentais em uma série de espécimes: um dente humano moderno e dois dentes
de Homo sapiens de uma coleção arqueológica do Holoceno de proveniência temporal e cultural incerta.A comparação dos vestígios microscópicos no espécime original de Neandertal com aqueles produzidos experimentalmente revelou uma clara correspondência. Os resultados demonstram que perfurar uma lesão cariosa usando uma ferramenta de pedra fina e afiada é totalmente eficaz, permitindo a remoção rápida do tecido dentário danificado. Lydia Zotkina
Esta é a primeira vez que tal comportamento é demonstrado fora do Homo sapiens, e é o exemplo mais antigo desse comportamento, com mais de 40.000 anos de diferença.
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Saberes Além do Sapiens: O Longo Processo Evolutivo das tecnologias
Essa descoberta estende uma ponte de empatia e inteligência em direção aos Neandertais. Por décadas, a paleoantropologia os retratou erroneamente como hominídeos rudes e incapazes de pensamento abstrato ou inovação técnica.
O molar da Sibéria prova o oposto: a cultura, o cuidado com o corpo e a sofisticação instrumental já eram uma realidade na Eurásia dezenas de milhares de anos antes de o Homo sapiens dominar a região.
Os neandertais chegaram a esta região há 70 a 60 mil anos, durante uma migração da Europa Central e Oriental, e a habitaram até pelo menos 40 a 45 mil anos atrás. Altai tornou-se um novo e adequado lar para eles graças à sua biodiversidade, clima semelhante ao da Europa, abundância de matéria-prima para a produção de ferramentas de pedra e suas presas habituais: bisontes e cavalos selvagens.
Análises de indústrias líticas e estudos paleogenéticos mostraram que os neandertais da Caverna de Chagyrskaya são muito aparentados aos portadores da chamada indústria micoquiana, que também viveram no Cáucaso e na Crimeia. Ksenia Kolobova acrescenta

O achado nos ensina que as tecnologias que desfrutamos hoje — como a própria odontologia — não surgiram do nada na nossa era.
Elas são o fruto amadurecido de um longo e contínuo processo evolutivo de tentativa, erro e acúmulo de conhecimento que atravessou diferentes espécies do gênero Homo.
Resumo do Achado Arqueológico
Impacto Histórico: Rompe com a ideia de que a odontologia complexa é uma invenção recente ou exclusiva do Homo sapiens.
Idade do Evento: 59.000 anos atrás.
Localização: Sibéria, Rússia.
Autores: Hominídeos da espécie Homo neanderthalensis (Neandertais).
Avanço Técnico: Uso de ferramentas de pedra com técnicas de perfuração e rotação manual em um molar infectado por cárie.
Neandertais: Os Verdadeiros Pioneiros da Odontologia
Reconhecer que um tratamento de cárie complexo foi executado na Sibéria há 59 mil anos é um exercício de humildade científica.
Mostra que o tecido do conhecimento humano foi tecido a muitas mãos, incluindo parentes evolutivos que desapareceram da Terra, mas que deixaram marcas eternas de sua engenhosidade.
A odontologia moderna não começou nas faculdades do século XIX; ela deu os seus primeiros e firmes passos no frio da Sibéria, quando um Neandertal, movido pela necessidade e pelo conhecimento prático de sua comunidade, girou uma lasca de pedra para curar a dor de seu companheiro.
A tecnologia é, acima de tudo, a nossa mais longa e bela história de sobrevivência. Um saber colaborativo, em cooperação com outros grupos.
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Bibliografia
Curadoria Técnica e Análise Audiovisual: Conteúdo Bibliográfico e Audiovisual Selecionado e Validado por Dr. Sergio Almeida Loiola – CV Lattes/CNPq.
Revista PLOS One
Early evidence of invasive mitigation of dental caries by Neanderthals
http://doi.org/10.1371/journal.pone.0347662
Museu de Antropologia e Etnografia Pedro, o Grande
Academia Russa de Ciências (Kunstkamera)
Análise Audiovisual
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