Atualizado 31 de maio de 2026
Pesquisa internacional liderada pela USP evidenciou a partir de análise de DNA que os povos indígenas que habitam a América do Sul descendem de três ondas migratórias. A terceira onda e a que mais representada a população atual veio da Mesoamérica por volta de 1.300 anos atrás.
A Pesquisa foi publicado na Revista Nature.
Foram apresentados dados de 128 genomas de indígenas americanos, revelando uma extensa e antes não caracterizada diversidade genética. Esse tipo de análise é capaz de revelar a ancestralidade, indicar as rotas migratórias dos diferentes povos e as dinâmicas das populações estabelecidas no continente.

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A seguir veremos como os novos dados contrariam modelos simplistas de povoamento, apontando pelo menos três dispersões para a América do Sul, seguidas por diferenciação regional e continuidade a longo prazo. Em texto, imagens e vídeos.
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Novos dados contrariam modelos simplistas de povoamento: Os povos indígenas que habitam a América do Sul descendem de três ondas migratórias
Estudo com 128 genomas completos de indígenas americanos de todo o continente conta história mais detalhada do povoamento do continente; estudo foi capa da Nature.
Genomas das populações nativas da América apontam para um processo de povoamento complexo e diferentes ondas migratórias dentro do continente.
Maria Guimarães | Pesquisa FAPESP – Os povos indígenas que habitam a América do Sul descendem de três ondas migratórias. A novidade é que uma delas, mais representada na população atual, veio da Mesoamérica por volta de 1.300 anos atrás, de acordo com estudo feito apenas por pesquisadores do continente.

Isso revela uma maior complexidade na história dos povos nativos, com maior diversidade genética do que se antecipava. A pesquisa estampa a capa da revista científica Nature.
“Chegamos a essas conclusões por meio de um trabalho muito intenso do ponto de vista de colaborações”, conta a geneticista Tábita Hünemeier, do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (IB-USP).
A Dra. Tábita Hünemeier coordenou o estudo, no qual vem trabalhando há mais de uma década, e se surpreendeu com a diversidade genética mais alta do que esperava.
Foram 128 genomas sequenciados por inteiro, representando 45 povos de oito países latino-americanos – Argentina, Bolívia, Brasil, Colômbia, Equador, México, Paraguai e Peru –, e comparados a outras 71 sequências disponíveis em bancos de dados.
A ideia foi estimar as afinidades genéticas entre todos os grupos indígenas americanos, levando em conta genomas antigos. A pesquisadora celebra a presença, entre os autores, da biomédica Putira Sacuena, da Universidade Federal do Pará (UFPA).
“Ela foi a primeira mulher indígena a trabalhar com antropologia genética”, afirma.

A colaboração indígena em estudos que dizem respeito aos povos nativos é considerada pelos pesquisadores uma novidade bem-vinda na busca por compreender essa história.
Esse trabalho acrescenta informações importantes sobre o que se sabe da colonização humana da América do Sul. A primeira onda migratória deixou registros com idades de até 12 mil anos na Lapa do Santo (leia mais em: revistapesquisa.fapesp.br/os-povos-de-lagoa-santa/) e na gruta do Sumidouro, na região mineira de Lagoa Santa, e no Chile.
Por volta de 9 mil anos atrás, mais uma migração deixou marcas distintas no registro genético e arqueológico, no Peru e na Argentina.
Mas o Holoceno Médio, período entre 8 mil e 4,2 mil anos atrás, trouxe mudanças ambientais que prejudicaram ecossistemas e a disponibilidade de recursos, afetando também as populações humanas.
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A terceira onda e a que mais representada a população atual veio da Mesoamérica por volta de 1.300 anos atrás.
Os povos indígenas que hoje habitam o continente, em parte por isso, descendem também de indivíduos que chegaram cerca de 1.300 anos atrás a partir de onde agora é o México.
Essa terceira onda, que não estava documentada até agora, é a grande novidade. As análises do DNA indicam também que após a chegada dos europeus no século 16, os grupos indígenas se tornaram menos populosos e mais isolados uns dos outros.

No tronco Tupi, o estudo detectou sinais de endocruzamento – quando a reprodução se dá entre grupos pequenos, sem possibilidades de migração – nos povos Sirionó, Suruí e Karitiana, indicando um colapso populacional provavelmente resultante de epidemias, escravização, perturbações nas possibilidades de subsistência e no conhecimento tradicional.
É possível enxergar uma recuperação recente em algumas regiões da parte ocidental da América do Sul. A diversidade genética é maior na América Central e no Cone Sul.
Um enigma foi encontrar trechos genômicos muito antigos característicos da Australásia (Austrália e ilhas na região), de neandertais (da Europa) e de denisovanos (do leste asiático), preservados no DNA sul-americano.

A hipótese é de que esses genes antigos tenham um papel benéfico ainda desconhecido e foram mantidos por seleção natural.
O foco do artigo era a diversidade e os percursos das populações, e não os aspectos funcionais, mas a identificação de regiões associadas à resposta imune, a traços cardiometabólicos, à fertilidade e a traços antropométricos sugere que estudos futuros podem explorar mais a fundo o papel da evolução humana no continente.
De acordo com Hünemeier, os marcadores genéticos usados em pesquisas anteriores tinham sido desenhados a partir de populações europeias e africanas, e não eram adequados para entender a América. “Agora temos parâmetros.”
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A nova pesquisa confirma as duas levas migratórias anteriores, caracteriza a terceira e a sua maior relevância e origens da grande diversidade genética
O importante – e que contraria algumas visões sobre os grupos nativos – foi documentar a permanência prolongada de grupos humanos em muitas áreas, com uma diversidade genética pronunciada.
Isso indica a necessidade de uma representação mais completa desses povos em bancos genômicos globais.
“O mundo inteiro dispunha de dados genômicos para contar a história de sua população, só o Brasil não tinha”, avalia o arqueólogo André Strauss, do Museu de Arqueologia e Etnologia (MAE) da USP, que não participou do estudo.

Ele remete a um artigo publicado por ele em 2018 na revista Cell, sobre a história antiga da população sul-americana (leia mais em: revistapesquisa.fapesp.br/quando-havia-indios-em-lagoa-santa/), que deixou um mistério no ar: se os povos de Lagoa Santa não eram os ancestrais diretos dos indígenas atuais, quem são esses ancestrais?
“O artigo de agora confirma as duas levas migratórias anteriores e caracteriza a terceira.”
Strauss tem o objetivo de encontrar essa onda no registro arqueogenético.
“Boa parte dos esqueletos que temos são mais antigos, há muito poucos dos grupos ceramistas”, explica ele.
Um motivo é que as cavernas e os sambaquis são ambientes mais propícios à preservação dos esqueletos, enquanto em locais como a Amazônia eles se decompõem. Do que é possível contar a partir dos dados moleculares, há mais a caminho.
“Já temos mais mil amostras sequenciadas”, afirma Hünemeier. “Entendemos que, para enxergar a diversidade da América e sua complexidade, o melhor é ter poucos indivíduos de muitas populações.”
Falando diretamente com as populações e, por vezes, com os líderes das comunidades indígenas, o estudo foi viabilizado mediante uma parceria entre os pesquisadores e as comunidades autóctones de países americanos, que gerou devolutivas acessíveis para os povos estudados, como resultados clínicos e análises de ancestralidade.
“Muitas perguntas que estão respondidas para outros continentes ainda não foram respondidas para a América”, afirma a DRa. Tábita Hünemeier.
“Tenho pensado no quão importantes são esses estudos para essas comunidades. Primeiro, porque isso traz uma imensa visibilidade para elas e, segundo, porque no momento em que os estudos genéticos se estabelecem, é possível trazer soluções para essas pessoas do ponto de vista de saúde, por exemplo. Se não existem estudos sobre alguns povos, essa parte da população está sendo negligenciada.”
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Afinidade dos povos americanos com as populações da Australásia: sub-região do continente Oceania, a Austrália e Nova Zelândia
O trabalho reuniu um conjunto amplo e de alta qualidade de genomas de povos indígenas das Américas.
Com esses dados, é possível entender melhor como a história das populações – como migrações e mudanças ao longo do tempo – e a seleção natural influenciaram a diversidade genética desses povos.
Isso traz novas e importantes informações sobre suas características genéticas únicas, suas origens, relações entre grupos, contribuições de humanos antigos (como neandertais) e adaptações ao ambiente.

“Isso é uma coisa importante de destacar: esse é um estudo feito por grupos de pesquisadores do Sul e das regiões de onde as populações são oriundas.
Além disso, analisamos essa diversidade dentro de um contexto antropológico, cultural e linguístico. Não foi um estudo genético ‘esvaziado’, sem levar em conta todos os outros processos humanos que têm impacto na evolução e diversificação dos povos.”
Neste contexto, estudos genômicos de populações indígenas da América continuam sendo os mais escassos dos grupos continentais humanos, apesar de fornecerem informações importantes sobre o povoamento inicial do continente e os fatores que moldam a diversidade genética entre as populações indígenas.
O estudo fornece contexto sobre o povoamento da América, colabora para afirmação dos direitos dos povos atuais e afasta o pensamento eurocêntrico de que a América é ‘simples”
“Eu acredito que o estudo atual seja muito importante para dar um contexto no debate sobre o povoamento da América. Conseguimos compreender melhor as ondas migratórias, que agora entendemos como sendo três; e vimos a afinidade dos povos americanos com as populações da Australásia (sub-região do continente Oceania, que abrange a Austrália e Nova Zelândia, por exemplo), o que surpreende nessa discussão, detalha Tábita Hünemeier.
“Existe um pensamento muito eurocêntrico de que a América é ‘simples’, que, por ser mais recente, tem pouca diversidade. Claro, tem menos diversidade que a África, porque foi o último continente a ser povoado, mas ainda assim tem uma pluralidade enorme. Temos 15 mil anos de história, isso não é pouco. Os povos são diversos e têm uma história evolutiva única que tem que ser considerada.”
Além da história, os estudos de variabilidade genômica entre as populações indígenas americanas também têm impactos na saúde e na evolução dessas comunidades – representadas por uma amostragem diversa e geograficamente ampla.
“Antes, ouvia-se que os dados genéticos não possibilitam ver toda essa estrutura ou os processos que aconteceram aqui. Na verdade, é possível sim, mas a partir de uma perspectiva diferente, porque a maioria dos marcadores utilizados na análise do DNA em estudos de genética de populações são desenhados para estudar a população europeia. É evidente que não é a mesma coisa. A novidade é que agora temos um banco de dados para contra-argumentar isso”, afirma a pesquisadora.
Tábita Hünemeier acredita que a pesquisa é um dos primeiros passos em uma montagem mais fidedigna do quebra-cabeça sobre a história dos povos indígenas americanos – ainda longe de ser completado.
“A partir daqui, a gente tem muito para responder. Esse estudo responde a muitas questões, mas abre ainda mais perguntas, e eu acho que isso é o mais interessante.”
A pesquisa contou com financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa de São Paulo (Fapesp), da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), do Programa de Bolsas de Ciência e Inovação (Eutopia-SIF) – cofinanciado pela União Europeia através do programa Marie Skłodowska-Curie (Cofund) –, do Acordo da Fundação Nacional de Ciência Suíça sobre Linguagem em Evolução do NCCR (Suíça), do Instituto Nacional de Ciências Médicas Gerais do Artigo Institutos Nacionais de Saúde (Estados Unidos da América) e da Sociedade Max Planck (Alemanha). O estudo teve a colaboração de diversos indivíduos e comunidades indígenas da Argentina, Bolívia, Brasil, Colômbia, Equador, México, Paraguai e Peru, e foi conduzido em colaboração com V. Acuña Alonzo e G. Macín.
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Bibliografia
Curadoria Técnica e Análise Audiovisual: Conteúdo Bibliográfico e Audiovisual Selecionado e Validado por Dr. Sergio Almeida Loiola – CV Lattes/CNPq.
Revista Nature
The evolutionary history and unique genetic diversity of Native Americans.
http://doi.org/10.1038/s41586-026-10406-w
Revista Pesquisa Fapesp
Indígenas sul-americanos são diversos e descendem de terceira onda migratória
Agência FAPESP
Indígenas sul-americanos são diversos e descendem de terceira onda migratória
Jornal da USP
Estudo revela evolução e diversidade genética únicas dos indígenas americanos
Outras Pesquisas da Revista Pesquisa Fapesp
Quando os povos indígenas ocuparam a Lagoa Santa
Análise Audiovisual
Vídeo 1 História Geral: Os Primeiros Americanos – Quem foram os primeiros humanos que chegaram nas Américas? Como e quando?
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